O RIO - por SOLANGE DA CRUZ BATTIROLA, NA COLUNA TRANSCENDER DO JORNAL MISSIONEIRO - 20-09-2008
O RIO
Eu sou o rio. Sou a água, o princípio e a origem da vida.
Olhe bem pra mim. Veja como eu caminho. É a correnteza que me dá força vital que eu libero durante todo o meu caminhar. Nisto se manifesta toda a minha vontade de viver. Lanço-me para além das fronteiras e vou abrindo o meu caminho. Afinal, o meu leito ainda não está feito. Eu é que vou abrindo estradas entre rochas, montanhas e vales e vou construindo a minha própria vida.
Eu continuo caminhando porque o caminho tornou-se a minha força, a minha liberdade. Por fim, em algum lugar do caminho recebi um nome: RIO. E agora sou um rio que se abre para a vida, o rio que possui o sabor de suas águas e porque sou um rio alegre, procuro fecundar tudo ao longo das minhas margens, deixando traços de vida por onde passo, afinal, a minha vida não me pertence, ela deve ser doada, deve ser compartilhada.
Eu fui feito para o mar, fui feito para o novo, para o maior, mas acima de tudo fui feito para a partilha e é isto que me impulsiona. Não sendo assim eu seria apenas uma poça dágua, uma água em repouso, parada, mas nós sabemos que a água parada acaba apodrecendo e não vai servir para mais nada.
Por falar nisso, o que é que você espera da vida? ...
Na medida em que eu caminho, tenho que ir renovando as minhas forças. Apenas a minha vontade de caminhar não me garante o êxito da minha chegada.
É que, nesta minha dança frenética por entre pedras e barrancos as vezes eu sinto que minhas forças diminuem, imerso nos mil problemas das correntezas que me empurram para todos os lados, eu fico sem saber por onde caminhar, mas, eu não posso parar diante das dificuldades, e então devo lançar-me uma, duas, infinitas vezes por sobre as pedras para abrir uma passagem por onde caminho.
Você já notou que raramente ando em linha reta? É que contornar montanhas e desviar-me de rochas não é apenas uma questão de gosto estético ou geográfico. Na maioria das vezes é minha única maneira de prosseguir.
É este o segredo da vida, a vontade de viver, a ânsia pela liberdade. E é isso que me mantém a cada dia mais forte, mais vivo.
Ao longo do meu caminho eu vou recebendo outras águas, pequenas, franzinas algumas, outras mais fortes, mas não importa o tamanho delas. Somadas, fazem de mim um rio, aumentam a minha força, ajudam-me a desviar o desconhecido. Sei que devo ainda crescer, andar prá diante, compartilhar. Mas eu sei também que estou andando sobre um caminho meu, em direção ao mar, a minha felicidade.
Gosto de conquistar aquilo que disputo, mas por isso às vezes preciso canalizar as minhas águas por entre margens que me ajudem a chegar ao mar. Outras vezes eu tenho que refreá-las e esperar o momento e condições adequadas para libertá-las. Eu tenho consciência de que deixando-as correr livremente, eu posso ocasionar morte e destruição ao invés de vida. Gostaria... gostaria muito que minhas águas pudessem correr livres e desimpedidas, mas, eu iria desperdiçá-las. Eu perderia forças e correria o risco de não chegar ao mar.
Veja, as minhas águas continuam a jorrar gota a gota, levando frescor e alívio àqueles que estão cansados e sedentos. Sinto-me feliz em poder fazer isto. Sinto-me contente da vida que trago dentro de mim. Às vezes, encontro terrenos áridos, secos onde minhas águas desaparecem como que por encanto, e então, o meu orgulho me faz pensar que estou desperdiçando vida, que estou sendo sugado, mas aí eu olho para as minhas margens e percebo com alegria que não há vida sendo desperdiçada. Ao contrário, é vida sendo compartilhada. Com o que eu dou, eu crio possibilidades de vida para muitos outros e o que é mais incrível, é que justamente quando eu cedo minhas águas para molhar as lavouras, para gerar vida e fazer crescer as plantas, a natureza me agradece e me retribui com águas que vem do alto, revigorando-me, preenchendo-me de vida. É um mistério... Um mistério que me faz muito feliz.
Eu continuo caminhando para o mar e vou descobrindo que em cada curva, em cada relanço, em cada queda eu posso ser útil de alguma forma. Vejo com alegria que cada amanhecer e cada entardecer é um novo dia, tão diferente de ontem quanto será de amanhã, mas esse novo dia me oferecerá inúmeras oportunidades de partilhar a vida que eu carrego. Meu objetivo é lançar-me no mar. Esse é o sonho de todo o rio, conhecer a imensidão do oceano. Mas às vezes eu sinto medo porque o oceano é desconhecido e é maior, muito maior do que eu, mas é justamente isso que me fascina e me desafia, essa mistura de medo e desafio, me impulsionam... é essa impulsão que me faz buscar, que não me deixa parado, mas se eu quiser chegar lá eu tenho que fazer o meu caminho, com pequenas, mas infinitas ações que a cada hora de cada dia me ajudarão a atravessar montanhas e vales, porque o limite deve ser a imensidão.
MENSAGEM DEDICADA A TODOS QUE TRABALHAM INCESSANTEMENTE PELA PRESERVAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO DA COMUNIDADE SÃO-LUIZENSE COM O NOSSO MEIO AMBIENTE!


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