ANTES QUE ELES CRESÇAM -Artigo publicado na Coluna Transcender, do Jornal Missioneiro, por Solange da Cruz Battirola - 03.05.2008
Antes que eles cresçam
Há um período em que algumas mães vão ficando órfãs de seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentemente, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença a vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de maneira igual, crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas.
Onde é que andou crescendo aquela criança danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversários com palhaços e o primeiro uniforme?
E você está agora ali, na porta do salão, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça!
Ali estão muitas mães ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes com seus cabelos longos soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos nós com os cabelos esbranquiçados.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
Há um período em que as mães vão ficando um pouco órfãs dos próprios filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para os volantes de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais a cama deles ao anoitecer para ouvirmos respirando, mais conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e cd’s ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam a casa de campo entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e as paqueras. Os pais ficaram exilados dos filhos.
Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas “pestinhas”.
Chega um momento que nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível
O jeito é esperar: qualquer hora pode nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não podem morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
ARTIGO PUBLICADO POR SOLANGE DA CRUZ BATTIROLA, NO JORNAL MISSIONEIRO - COLUNA TRANSCENDER - 02-05-2008


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