Não Tenho TempoArtigo publicado na Coluna Transcender, do Jornal Missioneiro, por Solange da Cruz Battirola em 09.08.2008
Não Tenho Tempo
Sabe meu filho (a),
Até hoje não tive tempo para brincar com você.
Arranjei tempo para tudo,
Menos para ver você crescer.
Nunca joguei dominó, dama, almofada, xadrez, ou batalha naval com você.
Não te levo na praça, nem ao cinema, biblioteca ou museu
Percebo que você me rodeia.
Mas, sabe sou muito importante e não tenho tempo...
Sou muito importante para inúmeros, convites sociais,
Uma série de compromissos inadiáveis...
E largar tudo isso pra sentar no chão com você?
Não, não tenho tempo!
Um dia você veio com o caderno da escola pro meu lado. Não liguei, continuei lendo o jornal.
Afinal, os problemas internacionais são mais sérios que os da minha casa.
Nunca vi seu boletim e nem sei quem é sua professora.
Não sei como está sua leitura e nem vi sua letra,
Também, você entende.....não tenho tempo....
De que adiante saber as mínimas coisas de você se eu tenho outras grandes coisas a fazer.
Puxa, como você cresceu!
Você já passou da minha cintura.
Está alto!
Eu não havia reparado isso.
Aliás , não reparo quase nada, minha vida é corrida.
E quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora.
E se uso aqui, perco-me calado diante da TV.
Porque a TV é importante e me informa muito...
Sabe, meu filho, a última vez que tive tempo para você, foi numa cama, quando o fizemos!
Sei que você se queixa,
Que você sente falta de alguma palavra,
De uma pergunta minha,
De um corre-corre,
De um chute na bola, um pular corda ou amarelinha,
Mas eu não tenho tempo....
Sei que você sente falta do abraço e do riso,
De andar a pé até a padaria para comprar pão
De andar de bicicleta até o jornaleiro para comprar o jornal...
Mas, sabe há quanto tempo não ando a pé ?
Não tenho tempo....
Mas, você entende, sou uma pessoa importante,
Tenho que dar atenção a muita gente.
Dependo delas.....
Filho (a), você não entende de comércio!
Na realidade sou uma pessoa sem tempo!
Sei que você fica chateado (a), porque as poucas vezes que falamos é monólogo.
Só eu falo.
E noventa e nove por cento é bronca:
Quero silêncio, quero sossego!
E você tem a péssima mania de vir correndo sobre a gente.
Você tem mania de pular nos braços dos outros...
Filho (a) não tenho tempo para abraçá-lo (a),
Não tenho tempo para ficar de papo furado com criança.
Filho (a), o que você entende de computador, comunicação, ou globalização?
Como é que vou parar para conversar com você?
Sabe, meu filho (a), não tenho tempo.
Mas o pior de tudo, o pior de tudo é que...
Se você partisse agora, neste instante,
Eu ficaria com um peso de consciência
Porque não arrumei tempo para brincar com você.
E na outra vida, por certo,
DEUS não terá tempo de me deixar, pelo menos, vê-lo!
Autor:
Neimar de Barros
Extraído do livro: DEUS Negro - 1979
Leia e reflita com carinho as palavras do autor, se tiver críticas ou sugestões, entre em contato.


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